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domingo, 28 de janeiro de 2018

    


CANÇÃO DO MAR - Texto da profa. Eliane Oliveira - 28/01/18

Uma cena bonita da maternidade: Leon acorda, já estou no sofá. Chamo ele pra deitar no meu colo, ele coloca a cabeça com o ouvido perto do meu coração e se acomoda. Levanta, vira pra mim e diz: "mamãe, sabia que quando a gente coloca a cabeça aqui, a gente ouve o som do mar?” (mensagem que recebi da amiga Rita Lemgruber por whatsapp, em 23/01/18)

Leon é muito sabido. Reparou o som do mar no coração de Rita. E, não foi a primeira vez. Tanto é que, desta vez, por saber, quis ensinar. Leon lê OM. Aquele som do mar que soa dentro do som do mar. Que permanece ecoando incessante no centro do centro de suas ondulações. Nota só. A mesma. A que sempre foi, sem nunca ter nascido nem morrido. O Verbo. O colo. O eterno tom sustenido que vibra sem precisar que algo de fora dele, em contato com ele, provoque o seu som. Anahata (palavra sânscrita e representa o quarto chakra, localizado na altura do coração). Quando a gente coloca a consciência ali, como Leon a cabeça ao peito de sua mãe, estamos em Casa. Na casa, tem peito cheio de leite e amor onde posso me abandonar de olhos fechados, sem medo de viver, porque sei que tudo está tudo bem. Mesmo que o mundo pareça que vai desabar e que eu tema que desabe, posso lembrar, pela canção do mar no meu coração, do mar eterno e infinito do coração da vida. Esta que passa mas não acaba.

Noutro dia, o mar estava calmo e eu me deitei sobre suas águas serenas como fazia quando criança. Olhos no céu. Sim, pude olhar para o céu. Estava azul. Esqueci-me do corpo. Não tinha mais corpo. Por uns segundos, diluí-me em mar e em céu. Tudo azul. Eu estava no mar olhando pro céu, ou o céu era o mar e eu olhava do mar de água aqui em cima pro mar do céu lá embaixo? De repente, senti que era a mesma coisa. Baixo e cima, céu e mar, ar e água, presença do corpo e ausência do corpo. Não tive medo de vir uma onda e quebrar sobre mim. Porque, no mar, não havia ondas, nem mim havia mim. Colo de mãe.

Mãe, mãezinha,
no seu colo jamais duvido de que tudo é UM.
Afaga-me a cabeça, mãe, enquanto ouço a canção do mar que vem do seu coração.
Ensina-me a aprender o que já sei”.
...
Leon deve ter uns quatro anos agora. Mas nos conhecemos antes de ele nascer. Praticou yoga na barriga de Rita, que foi minha aluna no Uddiyana. Rita, amiga de Julieta, que também trouxe Theo em sua barriga pra fazer Yoga, e, hoje é Professora de Yoga, dedicada às mulheres e às gestantes. Estamos todos em casa. Na casa do coração. OM. 
 
À Rita e ao Leon.
À Julieta.
À minha mãe, meu colo, Maria José
Com amor, Eliane

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

FUNDURAS EM MIM - por Profa. Eliane Oliveira




O outro lado do raso. Fundo. Olhava para a água de lá. Sete ou oito anos. Pés na beirada da borda. Densidade azul hipnótica. Chamava-me para dentro. Era mais forte que eu. Tinha que pular. Esticava os braços acima da cabeça, unia as mãos em prece e, como uma seta, embicava o corpo para a água. Pulava. De cabeça. Ai, que coisa boa! Piscina do clube. Eu não sabia (oficialmente) nadar. Quer dizer, não aprendi em escola. Aprendi observando meus irmãos mais velhos, sincronizando braçadas alternadas com pernadas frenéticas. Copiava os movimentos deles. Nadava. Havia a piscininha das crianças (bobinha para meus desejos edípicos de piscina) e a piscina dos adultos, semiolímpica, com arraias, fundo com uns dez metros de profundidade (Aí, sim). Queria essa. Na borda lateral do fundo, um trampolim alto. Bem alto. Dez metros, talvez. Não, não pulava do trampolim. Mas pulava dos blocos de concreto sobre a borda da piscina, que elevava, há mais um metro do chão, o salto para o fundo. Deus, cadê os pais dessa criança? Meu pai me monitorava. Da borda da piscina, pertinho de mim, ficava me acompanhando em meu nado. Observava atento. Caso precisasse, saltaria para me acudir. Mas nunca me negou, em meu impulso, de ir lá, do outro lado do raso, pular no fundo. Sozinha. Pelo contrário, no fundo, ele vibrava com minha vontade e meu atrevimento: “Vai lá, minha filha! Vai (pro)fundo!”. Do fundo pro raso. Do raso pro fundo. Dezenas de vezes. Era uma passagem que só eu podia fazer. Sob o encorajamento, cumplicidade e cuidados do meu pai. 

Na praia (ó Mar, doce e amado Mar, poderia falar somente de você hoje, já que és, pra mim, um grande mestre), era semelhante. Sem graça tomar banho de baldinho na beirinha, antes do quebra-mar. Eu queria era ultrapassar a linha das ondas espumantes, e alcançar lá onde o mar é caudaloso, grande, escuro, onde não se sente a areia sob os pés, nem se estremece com impacto das ondas. As ondas nervosas quebram lá na frente. Aqui, tudo é calmo. Aqui, o som é silencioso. Aqui, não há perigo. Oito ou nove anos. Minha mãe, ficava lá na beira da praia fazendo com o braço um movimento gigante de “vem pra cá”, “aí já está bom”, “não vão tão longe”. Eu não estava sozinha. Com meu pai e irmãos. “Me leva lá pro fundo?” - pedia. Levavam-me, mas só quando o mar podia me receber, pequenina, sem muitos tropeços e correntezas. O Rinaldo, meu irmão mais velho depois de mim, com aquelas suas famosas brincadeiras em tom meio macabro, ia me carregando pelos braços para o fundo, enquanto dizia: “Você confia em mim? Vou te levar pras profundezaaasss”. Guiavam-me: “Quando vier a onda, você fura”. Ai, que coisa boa! A onda passava levinha sobre mim, suave, sem raiva, e o mar grande me abraçava de novo. Pezinhos batendo sob a água para o corpo flutuar no mar, no fundo. A essa altura, o mar era Oceano. Um lugar muito longe da terra. Um céu do mar. Um lugar fora de qualquer lugar. De pura inutilidade. Sagrado. Segredo que se aprende com quem já experimentou, aprendeu e agora ensina, por nenhuma outra razão, senão a vontade de ver você tão feliz em experimentar essa experiência como ela própria foi feliz, quando a experimentou: “vai por aqui pra ver uma coisa”, “olha só isso”, “sentiu?”, “tenta deste jeito”. Mestres. Mas, como o mar é beira e fundo, o aprendizado apenas se completa quando se retorna para a beira: “Quando vier a onda, vai com ela”. Projetavam-me para eu pegar jacaré sobre a onda, e, então, voltar à praia.

Vinte litros num balde de água. No quintal da casa da Água Santa, um bairro do subúrbio do Rio. Vivi ali por vinte anos. Minha mãe enchia um balde de água, daqueles de vinte litros. O balde era quase do meu tamaninho. Quatro, cinco ou seis anos. Eu, meus irmãos e irmã juntos brincando no quintal, enquanto ela aguava o jardim. O que eu fazia? Metia a cabeça dentro do balde calmamente e ficava com a cabeça afundada, ouvindo o nada, por alguns segundos. Ai, que coisa boa (Já fez essa experiência? Ouve-se realmente o nada. Já ouviu o nada?)! Depois, eu retirava a cabeça, jogando o cabelo tipo “boi lambeu”, embebido de água, para fora do balde, a qual fazia um percurso extenso, molhando tudo a volta (tudo bem, porque tudo estava molhado mesmo!). Liberdade se encontra num balde de vinte litros. Mãe dizia que daria dor no ouvido. Vigiava-me para que as minhas experiências subaquáticas fossem só algumas, mas nunca me impediu que eu me atirasse nelas. Pelo contrário, eu ouvia de seus olhos um entusiasmo e um incentivo: “Vai lá, minha filha, ouve o fundo! Agora, volta. Fique aqui agora, à tona, no colinho da mamãe e me diga o que trouxe para nós lá debaixo d’água, depois do seu mergulho”. 

Ou então era na caixa d’água de amianto, que foi comprada para ser caixa d’água, mas não foi usada como caixa d’água. 2.000 litros d’água. Profundidade que me cabia sentada e/ou com as pernas esticadas na horizontal. Virou piscina. Ali, durei mais tempo. Por anos, enchíamos “a caixa” para “tomar banho de caixa”. Eu ia me afundar “na caixa”, nas manhãs, tardes ou noites quentes de verão. Minha mãe era quem vinha verificar, de vez em quando, se eu ainda estava viva, de tão quieta. E depois me deixava. Quieta. Com o corpo todo afundado, só a cabeça pra fora. Como um submarino. A água não se mexia. Ouvindo o som dos pássaros nas árvores do quintal quando era dia; olhando as estrelas do céu, quando era noite. Experiências de meditação. Imersão. Útero. Inconsciente. Calmo. Meia hora, uma hora. Tempo sem tempo. Eternidade. Até emergir, ficar novamente de pé. E, embebida das funduras em mim, agora voltar para funduras fora de mim, no convívio da casa e da família. 

A vida imita a vida. Uma vez ido aos fundos, você não poderá nunca mais não ir a eles (ou, pelo menos, ignorá-los). As consequências são irreversíveis. Possivelmente, você se interessará por funduras de todas as dimensões, para vivê-las à tona (Se não for para trazê-las à tona e vivê-las, o fundo será tão raso quanto o raso é para o raso. Fundo e raso são o mesmo todo: um só é um com o outro). Estudo. Pesquisa. As entranhas dos conhecimentos. As essências. As raízes. Poesia. A alma humana. Natureza. Oração. Silêncio. Música, antropologia, yoga. Antigas tradições filosóficas, espiritualistas e religiosas. Meditação. Deus. Entrega. Confiança. No amor, apaixonar-se-á perdidamente, mergulhando de cabeça em histórias profundas e duradouras. Amigos serão como irmãos e irmãos como amigos. Intuições, transmissão de pensamento, sincronicidade, premonição acontecerão frequentemente, pois serão naturais e não sobrenaturais. Sua natureza estará conectada ao Mistério que mora no profundo. O mundo, a sociedade, as culturas e cada pessoa terão a mesma importância pra você que você tem pra você, porque você descobrirá que você e o outro são interdependentes. E que é preciso cuidar (curar) da alma deles como você deve cuidar (curar) da sua. Tudo está enredado.

Você pagará mico. O mico não é muito aceito nas instâncias do raso, mas nos fundos, o mico é uma coisa muito legal. Uma ponte para o Samadhi (iluminação). Eu, por exemplo, sou uma grande pagadora de micos. Especialmente para manifestar amor, de qualquer tipo (fraternal, filial ou “namoral” - não encontrei outro adjetivo). Não fique com vergonha alheia de mim nem tenha medo de mim achando que eu sou maluca, por exemplo, eu manifestar meus sentimentos, ideias, pensamentos a você, às vezes sobre você, de um jeito tão claro, entusiasmado e direto, que você, enrubescendo-se, vai querer que o chão se abra para enfiar a cabeça, ou atravessar a rua, fingindo que não me conhece. Será tão visceral e impulsivo que, às vezes, você não saberá o que fazer objetivamente com a emoção que lhe causou. Nessa hora, não faça nada objetivamente. Respire. Receba e aceite. Se for possível, retribua. Se não for possível, disfarce e vá ali tomar uma água.

Você também poderá deixar as pessoas preocupadas com você, por causa da sua intensidade. Comigo, já houve quem ficasse em aflição, quando me viu chorando aos soluços após ouvir Vander Lee, assistir Amelie Poulain ou ler Rubem Alves. A pessoa ficou tão nervosa em me ver “entrar pra dentro” que precisei tranquilizá-la: “Eu só estou chorando. Deixa eu chorar. Calma!”. Em outras palavras: “Não pense que me afogarei no caminho até o fundo. Dá-me espaço para me jogar nesse Oceano. Permita-me entrar para ver Deus. Vou ali e volto. E, quando voltar, estarei um pouco mais aqui e agora, com você e com o mundo. Quando, então, poderei ver Deus também na superfície”. 


domingo, 8 de outubro de 2017

POR QUE O BUDDHA PERMANECEU MEDITANDO
Thich Nhat Hanh



"Nada pode sobreviver sem alimento, incluindo a felicidade"




Quando eu era um jovem monge, eu me perguntava por que o Buddha continuou praticando plena consciência e meditação mesmo depois que ele já havia se tornado um Buddha. Agora eu sei que a resposta é simples o bastante para se perceber. Felicidade é impermanente, como tudo o mais. Para que a felicidade seja ampliada e renovada, temos que aprender a alimentar nossa felicidade.

Nada pode sobreviver sem alimento, incluindo a felicidade; sua felicidade pode morrer se você não souber como alimentá-la. Se você cortar uma flor, mas não a coloca na água, a flor vai murchar em poucas horas.

Mesmo se a felicidade já está manifestada, temos que continuar a alimentá-la. Esta prática às vezes é chamada de autorregulação, e é muito importante. Podemos regular nossos corpos e mentes para a felicidade através das cinco práticas de: “Deixar ir”, “Atraindo sementes positivas”, “Plena Atenção”, “Concentração” e “Discernimento”.


Thich Nhat Hanh. In: No Mud, No Lotus: The Art of Transforming Suffering, United Buddhist Church, 2014.

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Sorria, Solte
Thich Nhat Hanh













Quando você tem uma ideia que te faz sofrer, deveria deixá-la ir, mesmo (ou talvez especialmente) se é uma ideia sobre sua própria felicidade. Cada pessoa e cada nação têm uma ideia de felicidade. Em alguns países, pessoas pensam que uma ideologia em particular deve ser seguida para trazer felicidade ao país e ao seu povo. Eles querem que todos aprovem a sua ideia de felicidade e acreditam que os que não estão a favor deveriam ser presos ou colocados em campos de concentração. É possível manter tal pensamento por cinquenta ou sessenta anos, e neste tempo criar uma tragédia enorme, apenas por causa desta ideia de felicidade.

Talvez você também seja prisioneiro de sua própria noção de felicidade. Há milhares de caminhos que levam à felicidade, mas você aceita somente um. Não considerou outros caminhos porque pensa que o seu é o único. Você seguiu este caminho com toda a sua força e, portanto os outros caminhos, os milhares de outros caminhos permaneceram fechados para você.

Deveríamos ser livres para experimentar a felicidade que apenas vem a nós sem ter que procurá-la. Se você é uma pessoa livre, a felicidade pode vir para você num estalo. Olhe para a lua. Ela viaja no céu completamente livre, e esta liberdade produz beleza e felicidade. Eu estou convencido que a felicidade não é possível a menos que seja baseada na liberdade. Se você é uma mulher livre, se você é um homem livre, desfrutará de felicidade. Mas se é um escravo, mesmo que apenas escravo de uma ideia, a felicidade será muito difícil de atingir. É por isso que você deveria cultivar a liberdade, incluindo a liberdade de seus próprios conceitos e idéias. Deixe suas ideias irem, mesmo que não seja fácil.

Conflitos e sofrimento são comumente causados por uma pessoa que não quer liberar seus conceitos e ideias sobre algo. Em uma relação entre pai e filho, por exemplo, ou entre parceiros, isto acontece o tempo todo. É importante treinar a si mesmo para deixar ir suas ideias sobre as coisas. Liberdade é cultivada pela prática de deixar ir. 

Se você olhar profundamente, poderá ver que está se segurando a um conceito que está te fazendo sofrer um bocado. Você é inteligente o suficiente, você é livre o suficiente para desistir dessa ideia?

       Estou me tornando calmo
Estou deixando ir 
Tendo deixado ir, a vitória é minha
Eu sorrio
Eu sou livre

O Dharma que o Buda apresentou é radical. Contém medidas radicais para cura, para transformação da situação atual As pessoas se tornam monges e monjas porque entendem que a liberdade é preciosa. O Buda não precisava de uma conta no banco ou uma casa. No tempo dele, as posses de um monge ou monja eram limitadas aos robes que vestiam e uma tigela para coletar comida. Liberdade é muito importante. Você não deveria sacrificar ela por nada, porque sem liberdade não há felicidade.


(Do livro “You are here”, de Thich Nhat Hanh)
(Tradução para o português: leonardo Dobbin)
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A prática de deixar ir
Thich Nhat Hanh




















Se há coisas que te fazem sofrer, você tem que saber como deixá-las ir. Felicidade pode ser obtida soltando, deixando ir, incluindo deixando ir suas ideias sobre felicidade. Você imagina que certas condições são necessárias para sua felicidade, mas olhando profundamente se revelará para você que essas noções são exatamente as coisas que ficam no caminho da felicidade e te fazem sofrer.

Um dia o Buda estava sentado na floresta com alguns monges. Eles tinham acabado de almoçar e já iam começar um Compartilhamento sobre o Dharma quando um fazendeiro se aproximou deles. O fazendeiro disse: “Veneráveis monges, vocês viram minhas vacas por aqui? Eu tenho dezenas de vacas e elas fugiram. Além disso, eu tenho cinco acres de plantação de gergelim e este ano os insetos comeram tudo. Eu acho que vou me matar. Eu não posso continuar a viver assim”.

O Buda sentiu forte compaixão pelo fazendeiro. Ele disse: “Meu amigo, me desculpe, não vimos suas vacas vindo nessa direção”. Quando o fazendeiro se foi, o Buda se voltou para seus monges e disse: “Meus amigos, sabem por que vocês são felizes? Porque vocês não têm vacas para perder”.

Eu gostaria de dizer a mesma coisa para vocês. Meus amigos, se vocês têm vacas, têm que identificá-las. Você pensa que elas são essenciais para sua felicidade, mas se você praticar olhar em profundidade, entenderá que são estas mesmas vacas que trazem sua infelicidade. O segredo da felicidade é ser capaz de deixar ir suas vacas, soltá-las. Você deveria chamar suas vacas por seus verdadeiros nomes.

Eu te garanto que quando você deixar suas vacas ir embora, você experimentará felicidade porque quanto mais liberdade você tem, mais felicidade você terá. O Buda nos ensinou que alegria e prazer são baseados na desistência, em deixar ir. “Eu estou deixando ir” é uma prática poderosa. Você é capaz de deixar as coisas irem? Se não for, seu sofrimento continuará.

Você deve ter a coragem de praticar o “deixar ir”, soltar. Você precisa desenvolver um novo hábito – o hábito de concretizar a liberdade. Você precisa identificar suas vacas. Você precisa considerá-las como um vínculo com a escravidão. Você precisa aprender como o Buda e seus monges fizeram, a libertar suas vacas.  É a energia de plena atenção que te ajuda a identificar suas vacas e chamá-las por seus verdadeiros nomes.

(Do livro “You are here”, de Thich Nhat Hanh)
(Tradução para o português: leonardo Dobbin)

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domingo, 2 de julho de 2017


POR QUE PRATICO YOGA
Texto da profa. Rosane Oliveira

















Quando fazemos yoga conhecemos os limites e potencialidades do nosso corpo físico. Aprendemos a nos respeitar e movimentar melhor. Podemos corrigir vícios posturais, e até conquistar mais alongamento e flexibilidade. Reaprendemos a respirar, a aumentar nossa capacidade respiratória, a fechar os olhos, fazer silêncio. Meditar.

É preciso de dedicação para ser um bom praticante de yoga. Precisamos exercitar a disciplina também. Ser disciplinado com nossa prática pessoal, com a boa execução de nossa série de exercícios, respirações e posturas, com o horário e duração da aula. Tudo isso é importante.

Mas a prática de Yoga propõe mais.

Um dos significados da palavra Yoga, em sânscrito, é unidade, integração. Yoga é um caminho para dentro de si mesmo, que, ao mesmo tempo, nos leva para o outro, o que conhecemos e o que não conhecemos. Através do Yoga, podemos vivenciar uma integração conosco, com tudo e todos a nossa volta. Podemos perceber que somos vida.
Fazer yoga só faz sentido se tentamos vivenciar e aplicar em nosso cotidiano tudo o que experimentamos na aula. Mais do que “fazer” yoga é preciso “praticar” yoga.

Praticar Yoga é conquistar flexibilidade, maleabilidade não apenas no corpo físico, mas, principalmente, em nossas ações e pensamentos, quando a atitude de ser flexível for necessária conosco e com o outro, para que não endureçamos. É buscar ter calma e serenidade diante dos diversos desafios que surgem ao longo do dia (e surgem, vão continuar surgindo), através da respiração suave, profunda e consciente, através da observação do silêncio interior. É ter equilíbrio, paciência e força interior para superar as dificuldades e desânimos que, vez por outra, nos alcançam - qualidades que podem vir da dedicação, persistência e disciplina mental. É poder viver com leveza, apesar dos pesares.

Yoga não termina quando saímos da sala de prática. Pelo contrário. O Yoga deve continuar em nossas vidas, nos nossos cotidianos, nas nossas relações, nos lugares que frequentamos.

Para mim, Yoga é uma escolha, um estilo de vida. A sala da prática é o lugar onde me alimento e me fortaleço. Um dos lugares onde posso me nutrir. É onde posso encontrar pares, companheiras e companheiros de caminhada, e compartilhar meus aprendizados e transformações internas (nem sempre fáceis de aceitar), mesmo que no silêncio da aula. Partilhas também se fazem com olhares, presença solidária, um dando força pro outro, um apoiando o outro, sem que palavras precisem ser ditas.

Yoga é unidade com a vida, comigo, com o outro. Com você. Yoga não termina, mas continua pela vida inteira. 

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domingo, 13 de novembro de 2016

CONTENTAMENTO
Entrevista à Monja Cohen à Folha de São Paulo 


  "A felicidade está diretamente ligada ao que chamamos de sabedoria, ou de compreensão superior."


 

Folha de São Paulo - Cientistas têm estudado os efeitos da felicidade e de estados de contentamento na mente humana em decorrência de práticas alternativas como a meditação. Como meditar pode ajudar na busca pela felicidade?

Monja Coen - Fizeram uma pesquisa com monges de um grupo de meditação do dalai-lama. Havia uma diferença entre os monges mais antigos e os mais novos em relação ao espaço do cérebro onde as reações de felicidade foram detectadas. A conclusão científica a que chegaram é que podemos nos treinar para ser mais felizes. As práticas meditativas levam a um estado de compaixão e isso é comprovado materialmente nos neurônios. Eles são plásticos e, assim como os músculos, podem ficar mais fortinhos se começarmos a procurar no outro alguma coisa boa.

Folha de São Paulo - O que é felicidade na sua opinião?

Coen - A felicidade está diretamente ligada ao que chamamos de sabedoria, ou de compreensão superior. Essa compreensão é nossa, da espécie humana. Não é para eleitos. É um estado de deslumbramento com a vida, mesmo na dor, no sofrimento.

Folha de São Paulo - A dor e o sofrimento fazem parte?

Coen - A felicidade não é uma coisa que aniquila a dor. Não dá para dizer "não vou ter mais sofrimentos, só vou ser feliz". A verdadeira felicidade é você perceber que a beleza é um processo contínuo. Se alguma coisa me magoa, eu fico triste. Eu não posso ficar alegre com a tristeza. Faz parte da experiência humana sentir saudade, amor, ternura, ficar triste, ter medo da morte. É trabalhar o que está acontecendo com você e não negar, não iludir. Não adianta querer cobrir com um veuzinho muito fino aquilo que é a nossa verdade.

Folha de São Paulo - É possível ser zen e sentir raiva?

Coen - Não existe esse negócio de "ah estou zen, nada me incomoda". Se estou zen, estou vivo. Estou com os pés no chão e sou um elemento de transformação do mundo. A indignação e a raiva são maravilhosas porque são elas que nos motivam a querer uma ação de transformação.

Folha de São Paulo - O contentamento não se confunde às vezes com o conformismo?

Coen - Há uma história budista que diz assim: a pessoa contente é feliz mesmo dormindo no chão duro. E aquele que desconhece o contentamento é infeliz mesmo dormindo num quarto luxuoso. Não significa que todo mundo tem de fazer voto de pobreza. Não é apenas se conformar com a situação. O caminho para essa busca da felicidade nem sempre é muito alegre. Há momentos em que você fala: "Não está acontecendo nada!". E, sem isso, você não chega lá. Não é só fazendo massagem e cuidando do corpo que encontramos felicidade. Nem só cuidando da mente e abandonando o corpo. Somos uma unidade, nosso corpo e nossa mente estão unidos.


http://sobrebudismo.com.br/o-lugar-que-estamos-procurando-onde-reside-a-felicidade-e-o-contentamento-sakyong-mipham/

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TRANQUILIZE-SE
Por Rubem Alves
 



"Problemas, sofrimentos, frustrações são partes da vida. Não é possível evitá-los. Mas é possível sofrê-los com sabedoria."


 



Então você está com medo porque acha que a sua vida está prestes a desmoronar. Paredes que você considerava firmes estão fora de prumo, há sinais de rachaduras no reboco. As lâmpadas no teto balançam sugerindo terremotos que se aproximam. Pensa até em mudar para outras paragens (ninguém segura terremoto). Você escora as paredes mas não põe muita fé no que está fazendo; escora outras, mas você é fraco demais para tanta confusão. Parece que tudo é inútil. As coisas não se encaixam, sua alma se agita, há muito que você não conhece a felicidade de uma noite de sono feliz, cada manhã é uma angústia, seu corpo está perturbado, faz coisas que não deveria fazer, fere pessoas por onde passa, justamente as pessoas que você ama e que são a razão de ser da sua vida. É triste isto: que, frequentemente, sejam as pessoas amadas as que vão receber o veneno que se ajuntou em nós. Aí, ao sentimento de catástrofe, junta-se o sentimento de culpa, como se você fosse a causa de tudo o que existe de errado. Quando isso ocorre, a gente começa a sentir raiva e dó da gente mesmo. Essa combinação de sentimentos é letal. Uma vez, vi uma maria-fedida chupando os sucos de uma lagarta: enfiou dentro dela uma pequena tromba e foi chupando, chupando, do mesmo jeito que se chupa iogurte com canudinho. A lagarta foi esvaziando até ficar como um saco de pele vazio. Cuidado! Os sentimentos de autopiedade podem fazer com você o que a maria-fedida fez com a lagarta: eles nos exaurem de nossas energias.

Aconselho-o a tomar um banho frio. Banho quente não. Dá moleza. Fuja de quem tem dó de você e deseja consolá-lo. Prefira a voz dura do bruxo D. Juan. O aprendiz de feitiçaria, Carlos Castanheda, começou com uma conversa choramingas e logo recebeu do feiticeiro um golpe: “Sua cabeça é um saco de lixo. Você precisa ouvir a sabedoria da morte. A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir, como você sente sempre, que tudo está errado e que você está prestes a ser aniquilado, volte-se para a sua morte e pergunte-lhe se é assim mesmo. Sua morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa fora do seu toque. Sua morte lhe dirá: ‘Eu ainda não o toquei’”.

A morte ainda não o tocou. Portanto, seus motivos de queixa não têm importância. Mais cedo ou mais tarde, seus problemas vão se resolver, de um jeito ou de outro.

Há dois tipos de problemas.

Primeiro, os problemas reais: uma cólica renal, uma goteira, uma conta para pagar, uma perna quebrada, um pneu furado, os pratos do jantar para lavar, um amor que não deu certo, uma pessoa querida que morreu.

Esses problemas se resolvem de duas formas. Os pratos a gente lava, o pneu a gente troca, a perna quebrada se encana. Problemas que devem ser resolvidos sem reclamação e sem muito falatório, pois reclamações e falatórios, além de nada contribuírem para a solução dessas contrariedades, só servem para produzir irritação. Os faladores são especialistas nisso.

Outros não têm solução. O amor que não deu certo, a pessoa querida que morreu: só resta chorar. E o importante é enxotar os consoladores, que são a praga-mor daqueles que estão sofrendo. Os consoladores acham sempre que suas tolas palavras são capazes de encher o vazio do sofrimento.

Problemas, sofrimentos, frustrações são partes da vida. Não é possível evitá-los. Mas é possível sofrê-los com sabedoria.

Por isso, cuide de seu corpo e de sua alma. Frequentemente, as pessoas me perguntam: “Tudo bem?”. Eu respondo: “Nem para Deus, todo-poderoso, as coisas vão bem. As coisas não vão bem mas eu vou bem”. É como no avião: lá fora está uma terrível tempestade, nuvens pretas, não se vê nada, os raios iluminam o escuro, o avião pula como um cavalo bravo. E eu, já que não posso mesmo fazer coisa alguma, tomando o meu uisquinho. O medo é enorme. Mas entre medo sem uísque e medo com uísque, prefiro a segunda alternativa. Na vida é assim: tudo vai mal, mas preciso que o corpo e a alma sejam um centro de tranquilidade.

Mas essa tranquilidade não acontece por acaso. Ela é o resultado de disciplina.

Há uma série de encheções à sua espera: listas de coisas para fazer, compras, providências práticas, crianças a serem levadas à escola. Claro, você não poderá fugir dessas responsabilidades. Mas não deixe que sejam elas as primeiras a entrar dentro do seu corpo. Lide com elas com a sobriedade Zen. Caso contrário, elas tomarão conta do seu corpo e da sua alma e se transformarão numa legião de demônios a atormentá-lo através do dia.

Tire quinze minutos da manhã, antes de fazer qualquer coisa. Não é muito tempo. E você merece. Ponha uma música pra tocar. Há tanta coisa bonita. O canto gregoriano, as sonatas de Scarlatti, as sonatas para violino e piano de Bach, as mazurcas de Chopin (pura brincadeira), as Cenas infantis ou as Cenas de floresta de Schumann. Esses são gostos meus. Você terá os gostos seus. O importante é que, no início da manhã, a música seja cheia de paz.

Enquanto você ouve a música, leia. Estou me deleitando com a leitura do livro de Eclesiastes, e estou mesmo me atrevendo a uma tradução poética minha: “Neblinas, neblinas, tudo são neblinas”, diz o poeta. “O homem, por mais que trabalhe, poderá por acaso produzir algo sólido, que não seja neblina? Uma geração passa, outra geração lhe sucede – como a neblina; somente a terra permanece…”.

Esse sentimento de que tudo é espuma e areia tem um efeito tranquilizador. Tudo é neblina, tudo é espuma. Pense na praia, ao final do dia, arrasada pela praga dos humanos que a violentam de todas as formas possíveis. Vem a noite. A solidão. Sobe a maré. Pela manhã a praia é uma pele lisa, jovem, sem nenhuma cicatriz. Toda a loucura humana foi esquecida. Pois assim mesmo é a vida: tudo será esquecido – de sorte que não vale a pena nos afligirmos.

E reze o poema de Ricardo Reis, resumo da minha filosofia de vida:

“Mestre, são plácidas todas as horas que nós perdemos, se no perdê-las, qual numa jarra, nós pomos flores. Não há tristezas nem alegrias em nossa vida. Assim, saibamos, sábios incautos, não a viver, mas decorrê-la, tranquilos, plácidos, tendo as crianças por nossas mestras, e os olhos cheios de natureza. À beira-rio, à beira-estrada, conforme calha, sempre no mesmo leve descanso de estar vivendo. O tempo passa. Não nos diz nada. Envelhecemos. Saibamos, quase maliciosos, sentir-nos ir. Não vale a pena fazer um gesto. Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora sempre. Colhamos flores. Molhemos leves as nossas mãos nos rios calmos para aprendermos calma também. Girassóis sempre fitando o sol, da vida iremos tranquilos, tendo nem o remorso de ter vivido”.

Igual ao sábio das Escrituras é a Cecília Meireles: se a morte ainda não o tocou, trate de aprender a viver com sabedoria. A sabedoria não é garantia de felicidade. A vida não oferece garantias de felicidade para ninguém. Como disse Guimarães Rosa, "felicidade só em raros momentos de distração”. Mas a sabedoria nos livra dos sofrimentos provocados pela nossa própria loucura. Quem é sábio sofre pelas razões justas e, por isso mesmo, sofre com tranquilidade. A sabedoria nos traz paz de espírito. Que é aquilo que mais o coração deseja. Paz de espírito é como um campo batido pelo vento, como um riacho de águas limpas, como uma borboleta pousada sobre uma flor.

A cabeça é um útero terrível. Dela tanto podem sair flores e borboletas quanto charcos e escorpiões. De vez em quando, ela é invadida pelos demônios das catástrofes e dos horrores – e aí não existe corpo que aguente. Os tais demônios são produtores de filmes, que ficam sendo exibidos em sessão contínua em nossa cabeça.


ALVES, Rubem. Cenas da Vida. Campinas: Papirus, 1997