Em tempos em que se quer comemorar arbitrariedades
e violência, republico os testemunhos de vida de minha mãe, Maria José e de meu
pai, Edmilson. Eles sofreram as arbitrariedades da ditadura militar de 64.
Gostaria de compartilhar com vocês a narrativa dela sobre esse tempo sombrio
que deixou marcas insuperáveis no corpo, na mente e no espírito deles, de toda
a família, dos amigos e do país, porque, como eles, foram muitos. Esse
testemunho é para nos relembrar da nossa história e atualizar nosso desejo no
processo de humanização e transcendência, e não de barbárie. Violência, ódio e
privação da liberdade não se deve comemorar em nenhuma hipótese. Violência não
é justificável por nenhum motivo. É óbvio, mas precisamos falar do óbvio.
Diante de violência se chora, se lamenta, dela, se indigna, e age em direção da
paz e do entendimento. Isso é transcendência. OM
(Republicando, à
beira da Páscoa de Jesus, 2019)
#Ditaduranuncamais #ParaQueNãoSeRepita #ParaQueNãoSeComemore
...
Nestas relembranças dos anos de chumbo, é bom que seja contado, às novas
gerações e a pessoas daquela época (pois muita gente ficou sem informação),
tudo o que aconteceu. Imbuídos do ideal cristão, eu e o Edmílson participávamos
intensamente da luta pela sociedade justa, conforme os princípios implantados
por Jesus Cristo, para a construção do Reino de Deus. Depois, os nossos filhos
Maurício, Rinaldo, Eliane e Rosane, também se engajaram nessa luta.
UMA TESTEMUNHA DA HISTÓRIA
Maria José Martins de Oliveira
l° capítulo
“Em 1972, vivíamos, no Brasil, um clima de muita intranquilidade. Eu tinha
consciência de que quem tentasse fazer alguma coisa que contrariasse as regras
do governo poderia ser perseguido, preso e até desaparecer.
Nesse estado de opressão e incertezas, vivíamos com nossa família. Por um lado,
a vontade de colaborar, ajudar o mundo a ficar melhor, mais humano, mais feliz.
Por outro, a repressão, a reação das forças do mal, que impunham o medo, o
terror e as incertezas quanto ao futuro dos nossos filhos, que queríamos fossem
criados na liberdade, justiça e paz e em pleno exercício da cidadania.
Maurício ainda não tinha 4 anos e Rinaldo ia fazer 2 anos, quando o pai foi
eleito presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro. Edmílson
cursava a Faculdade de Letras, na Universidade Gama Filho, trabalhava no Banco
do Brasil e, convicto da necessidade de sua participação no movimento sindical,
mesmo com riscos, aceitou o desafio. Eu, que já havia participado, em tempos de
ginásio, das atividades da JEC (Juventude Estudantil Católica), trabalhava na
GE, acompanhando de perto o movimento dos trabalhadores, aceitei também o
desafio. Não foi fácil porque, naqueles tempos obscuros, muita coisa ainda não
entendia. Acompanhava as atividades da diretoria coordenada pelo Edmílson e
percebia o entusiasmo dos diretores. Isso me animava.
Na noite do dia 17 de abril de 1972, esperava o Edmílson para o jantar. Já era
meia noite e ele não chegava. Estava preocupada. Fiquei pensando: “Alguma coisa
grave aconteceu”. Por volta de uma hora da madrugada, chegou o Joaquim José –
diretor do sindicato – com sua esposa. Cumprimentaram-me, bem delicados e, para
não me assustarem, nada me falaram sobre o ocorrido. “Vocês por aqui a esta
hora, o que houve?”, indaguei. Meio sem jeito, falou o Joaquim: “É que houve
intervenção no sindicato. “Houve intervenção e..., quis eu saber mais.
Acrescentou o Joaquim, com muito cuidado: “A polícia levou o Edmílson e mais
três bancários”. “Levaram eles pra onde?” , perguntei. Joaquim, bem nervoso,
disse que não sabia, que o Serginho Athayde tinha seguido as viaturas
policiais, mas as perdera de vista. Tínhamos que aguardar o dia seguinte para
as providências. Naquela noite, não deu para dormir.
Eram mais ou menos 8 horas da manhã do dia 18, quando chegou o Joaquim, dizendo
que ainda não tinha notícias. Pedi que ele avisasse à minha mãe e fosse a Bangu
entregar um bilhete, escrito por mim, ao padre Celso José Pinto, nosso irmão e
amigo, hoje arcebispo emérito de Teresina-PI. No bilhete, eu dizia:“Padre
Celso, houve intervenção no Sindicato dos Bancários. Edmílson está preso e
sumido. Você pode fazer alguma coisa?”
2º CAPÍTULO
Logo minha mãe chegou, bem preocupada, sem entender o que estava acontecendo e
disposta para ajudar. O padre Celso imediatamente entrou em contato com a
Comissão de Justiça e Paz, através de Tibor Sulik e do professor Cândido Mendes
e com o cardeal do Rio de Janeiro, d. Eugênio Sales, e começaram a tomar
providências. O padre Celso e mamãe foram logo espalhando a notícia entre
familiares e amigos da Igreja. Muitos foram à nossa casa para prestar
solidariedade. Foram bonitos aqueles gestos de apoio de muitos amigos e
familiares.
Ficamos, durante uma semana, numa terrível expectativa, sem saber onde estavam
Edmílson e seus companheiros. Foi uma semana de tortura psicológica. Naqueles
tempos de horrores, tudo imaginávamos e pouco podíamos fazer para encontrá-los.
Mas, certos de que estavam sendo injustiçados, adquirimos forças e saímos a
procurá-los. Eles eram trabalhadores, pais de família e lutavam pela justiça. O
que estava ocorrendo provocava, em todos nós, muita indignação.
Eu vivia dois dramas. Um era a apreensão em relação ao sumiço do Edmílson e, o
outro, as incertezas em relação a meus filhos. Sabia que a ditadura era
impiedosa. Torturava, matava e sumia com as pessoas. Como passar tranquilidade
para nossos filhos, que eram tão crianças? Quando perguntavam pelo pai, eu
dizia: “O papai está trabalhando, vai demorar um pouco, mas, se Deus quiser,
vai voltar para casa”.
Depois de uma semana, dona Maria Luísa, esposa do Roberto Martins, soube que o
pessoal poderia estar preso na Polícia Federal, na Praça 15. O Laécio, diretor
da Contec, telefonou-me, pedindo que eu fosse com ele e a Maria Emília
(vice-presidente do sindicato), à Polícia Federal, para constatarmos a verdade.
Fomos, eu e a Virgínia (minha cunhada), à Contec. Levei a Bíblia para deixar
com o Edmílson, se o encontrasse. Chegamos por volta das cinco horas da tarde.
Toda a diretoria do sindicato estava lá. O clima era de tristeza e expectativa.
Alguns estavam desanimados, temerosos e abatidos. Então, eu logo falei: “Gente,
não podemos ficar assim, derrotados. Precisamos ter coragem e unir nossas
forças para a luta. Peguei a Bíblia que estava comigo e disse: “Aqui nós
encontraremos força.” Alguns abriram a Bíblia, leram trechos e comentavam entre
eles. Um deles me falou: “Maria, não sei rezar.” “Rezar é falar a Deus com o coração”,
disse eu. Depois, começaram a conversar sobre o que podiam e deviam fazer.
Dali, eu, Maria Emília e Laécio saímos para a Polícia Federal, com alguma
esperança de encontrar o pessoal desaparecido. Lá, o superintendente, inspetor
Sena, nos recebeu aos gritos, dando socos na mesa (parecia estar bêbado): “O
que vocês querem aqui? Saiam todos, agora! Não tem ninguém aqui!” Os policiais
engatilhavam armas e apontavam para as janelas. Achamos aquilo tudo muito
estranho. Ficamos assustados. Saímos indignados. No corredor, um senhor
escurinho falou-me, baixinho: “Eles estão aqui, sim, vão embora, vão embora”
(ele estava nervoso). Falei ao pessoal o que tinha ouvido. No dia seguinte, os
advogados constataram que o Edmílson e os outros bancários estavam lá.
Por orientação dos advogados, fui à Polícia Federal em dia de semana para
tentar falar com o Edmílson. Chegando lá, encontrei-o saindo da cela, para
interrogatório. Estava algemado, ladeado por dois policiais armados com
metralhadoras. Procurei ficar calma. A conversa com ele foi rápida. Saí logo,
bem amargurada. Edmílson ainda estava com a roupa que tinha sido preso e
barbudo. Não parecia ter sofrido tortura física. Estava meio apreensivo, mas
bem disposto. Quando cheguei em casa, encontrei alguns amigos, inquietos,
esperando notícias.
Todos os dias, ia à prisão para levar comida, roupa, livros e, também, para ter
a certeza de que o Edmílson e os outros permaneciam lá. Escrevia um bilhete,
que passava pelo crivo do delegado; o carcereiro levava o bilhete e trazia a
resposta. O delegado examinava o que estava escrito e me entregava. Quando eu
chegava em casa, os amigos queriam ver o bilhete e os “entendidos” analisavam
as letras, palavras e frases, tentando descobrir se estava havendo alguma
tortura. Nos 15 primeiros dias, só vi o Edmílson uma vez. Havia ordem de
incomunicabilidade.
3 CAPÍTULO
Um dia, quando chegava em casa, vindo da Polícia Federal, avistei, em frente à
nossa casa, vários carros da polícia. Fiquei espantada. “O que está
acontecendo?”, pensei. Entrando, deparei com quatro policiais sentados à mesa,
folheando livros. Disseram-me que estavam procurando possíveis materiais
subversivos. Fizeram-me algumas perguntas e se despediram dizendo: “Vamos levar
estes livros, porque precisamos levar alguma coisa para apresentar trabalho”.
“Que ridículos!”, pensei. Eram livros didáticos, dos quais Edmílson precisava.
Além de levar os livros, ainda deixaram tudo desarrumado.
Nossos amigos e familiares sempre apareciam lá em casa: Padre Celso, Edu e
Cecília, Zé Guilherme e Marilena, Vicente e Virgínia, Fagundes e Selma, Gonzaga
e Celma, Jaime e outros irmãos do Edmílson, padre Montenegro (que sempre levava
balas para as crianças), Paulo e Neusa Pacheco, entre muitos outros. Alguns,
como Paulo e Neusa, Vicente e Virgínia, iam lá diariamente. A solidariedade,
firmeza e participação do padre Celso, encorajando a todos, muito me
impressionava. A participação dele e d. Eugênio Sales foi decisiva para liberar
o Edmílson e os outros bancários.
Depois de 15 dias, os advogados Nilo Batista e Técio Lins e Silva conseguiram
quebrar a incomunicabilidade. Houve a primeira visita, num domingo. Muita gente
compareceu: eu, as crianças, padre Celso, padre Montenegro, Fagundes e Selma,
Zé Guilherme, os irmãos do Edmílson, etc.
Zé Guilherme, professor de Matemática e militante de movimentos populares da
Igreja, muito animado e falante, procurava confortar o Edmílson, dizendo.
“Fique tranquilo, estamos todos solidários contigo”. E acrescentava, tentando
consolar: “Chico Alencar também está em dificuldades com a “segurança” e
estamos fazendo todo o possível para ajudá-lo. Estamos todos no mesmo barco,
não desanime.”
Chico Alencar, professor de História, era também militante de grupos de base da
Igreja. Participava do movimento de resistência à ditadura. Com a prisão do
padre Daniel de Castro, Chico, para não ser preso, teve que se refugiar no
interior de Minas Gerais.
No segundo domingo de visitas, foram vários amigos e parentes. Até houve um
detalhe interessante. O Carlos Alberto de Castro Gonçalves, que tinha sido
nosso companheiro no grupo de jovens, na década de 60, foi também visitar.
Conversando com o carcereiro disse: “tratem bem o tio aí”. O carcereiro falou:
“Ele está aqui apenas para um “corretivo, depois vai ficar tudo bem”. Ah! o
Carlos ficou indignado. Chegou pra mim e disse: “Tia, eu não aguento esse
canalha dizer que o tio está aqui para um corretivo. Esse cara é que precisa de
corretivo”. Eu falei: “calma, Carlos, calma”.
No terceiro domingo foi muita gente. O carcereiro não permitiu a visita. Isso
deixou todos preocupados. “O que estaria acontecendo?” Naquele momento de
incertezas, pensava-se em tudo. No dia seguinte, eu fui lá na prisão, bem cedo,
levando comida e roupas. Escrevi um bilhete, contando ao Edmílson o ocorrido.
Ele respondeu, dizendo que tinha escutado a voz das crianças e que ele e os
companheiros ficaram preocupados com a proibição da visita. Havia incertezas
aqui fora e incertezas lá dentro. Nesse dia, meu irmão José Luís, de Barra
Mansa, também foi.
Os advogados informaram que havia a possibilidade do relaxamento da prisão,
após 30 dias. No trigésimo dia, todos na expectativa, chegou a notícia de que a
polícia tinha solicitado à Justiça da Marinha a prorrogação da prisão por mais
30 dias. Tristeza geral. Entre outras providências, os advogados pediram que eu
e as esposas dos outros presos fôssemos conversar com o juiz, dr. Paulo Simões
Correia. Fomos e pedimos a compreensão dele. Quinze dias depois, no dia 2 de
junho de 1972, ele expediu o alvará de soltura. Foram 46 dias de agonia.
Após a libertação, por causa da insegurança, não podíamos ficar em casa.
Mudamo-nos , por alguns dias, para a casa de minha mãe. Logo no dia seguinte,
os padres Celso e Montenegro foram visitar-nos e minha mãe aproveitou para
convidá-los para um almoço de solidariedade e desagravo que ia oferecer ao
Edmílson.
Depois de algum tempo, passada a tempestade, os militantes bancários precisavam
reunir-se para discutir a resistência à intervenção no sindicato. A luta tinha
que continuar. Como não tinham onde se reunir, vinham para nossa casa.
Lembro-me que, aos sábados, os “companheiros” vinham com muita vontade de
conversar e buscar soluções. Às vezes, as reuniões começavam depois do almoço e
iam até 9 ou 10 horas da noite. Eu fazia café, servia biscoitos e acompanhava
de perto os debates. De vez em quando dava palpites.
Em 1977, os militantes bancários e os da Igreja acharam que os trabalhadores
deviam participar das atividades políticas e partidárias, defendendo a
candidatura de algum companheiro a deputado estadual. Escolheram o Edmílson,
que se candidatou pelo então MDB, o partido de oposição. Eles atuavam no Grupo
“Autênticos do MDB,” juntamente com Lysâneas Maciel, Marcello Cerqueira, Délio
dos Santos e outros. A campanha foi bonita, com muita gente participando. O
pessoal foi para as ruas, portas de bancos, portas de fábricas, feiras, etc.
Nossa casa, além de local para discussões políticas , passou a ser, também,
“comitê eleitoral”. Nesse momento, além do Maurício, e Rinaldo, tínhamos Eliane
e Rosane e, nessa campanha, eles iniciaram suas atividades políticas”.
Publicado em:
Oliveira, Edmilson. Bancários: Anos de Resistência:- 1964 à 1979 - Rio de
Janeiro: Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, 2004.
Oliveira, Edmilson. Removendo Pedras: Histórias de Vida e Esperança. Rio de
Janeiro: Deescubra, 2010.
Espaço Uddiyana Yoga - Rua Almirante Tamandaré, 66/525 - Flamengo RJ



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