ENTENDE? (Texto da professora Eliane Oliveira) 

















O entendimento entre você (eu) e o outro, quando acontece, é uma espécie de milagre. 

O seu óbvio parece tão óbvio a você que, é óbvio - você pensa – que, ao ter dito o que você queria dizer, você se fez entender naquilo que desejava que o outro entendesse. Puro engano. Nada garante que o seu óbvio será entendido pelo outro, nem que você entenderá o óbvio do outro que o outro acha muito óbvio que você entenda. Você pode dizer A, com todas as cores e pausas didáticas, e o outro entender B em outros tons. O que o outro entende de você passa sempre pela filtragem do outro. E vice-versa. É claro que essa filtragem pode ser mais ou menos empática (quando quem escuta consegue se colocar no lugar de quem fala). Se o coração é amoroso, se o ego está calmo e largou o posto de “dono da cocada preta” ou “por cima da carne seca”, será possível vislumbrar algo mais próximo do outro que não é você. Mas, mesmo assim, mesmo tentando experimentar o outro na sua condição de outro totalmente outro, nunca seremos o outro. Não poderemos controlar o que será compreendido do lado de lá, nem o outro, do lado de cá.

Isso torna a comunicação um desafio (um trabalho, um exercício) de tradução e de desapego.

Teremos que nos empenhar em traduzir, em expressões (palavras ou ações) cada vez mais simples, o que vai no complexo de nossos pensamentos e sentimentos. E, depois disso, abandonar o controle sobre efeitos do que foi dito. Porque a comunicação, por si própria, irá nos ensinar sobre a precariedade de alcançarmos o entendimento do outro, que entende sempre com ouvidos de outro. Poderemos nos redizer ou reouvir o outro muitas vezes para “retentar” uma tradução mais próxima do que quisemos dizer e do que ele quis que entendêssemos. Voltar, explicar, refazer. “Desequivocar” o que for possível. 

Aqui, estou - é óbvio (risos pelo “óbvio” provavelmente não tão óbvio) - me referindo à precariedade do entendimento mútuo nas situações face-a-face, em que o diálogo é olho no olho, ao vivo, presencial, corporal. Dizem os especialistas: há virtualidade na comunicação e desvios no entendimento, mesmo na presencialidade. Como assim? É que aprendemos a manipular nossas máscaras. Não nos dizemos sempre francamente. Escondemos o que sentimos e o que pensamos. E, muitas vezes, mais inconscientes, somos ignorantes do que sentimos e pensamos. Mas, quando a virtualidade é usada consciente e explicitamente em ferramentas virtuais como as da internet, o não entendimento pode alcançar níveis quintessenciais.

Você pode, por exemplo, subentender o que foi escrito em emojis por um remetente que quis ser óbvio. Para ele, é óbvio que a imagem de duas mãos fazendo um movimento que parece um “adeus, tchau, olá, estou aqui”, um coração rosa brilhante, um trevo de quatro folhas e uma flor querem dizer: “Olá, meu coração brilhante deseja a você boa sorte e uma vida cheia de flor”. Mas, eu posso ler: “Adeus, flor! Que seu coração seja brilhante e você tenha boa sorte”, ou ainda, “uma flor para você que faz meu coração ficar brilhante e ter sorte”. Sei lá...Não sei mesmo. Pode ser qualquer coisa. Ou então, o escritor pode ter querido o contrário: que você captasse uma mensagem oculta sob o que as palavras disseram objetivamente. Isso acontece, por exemplo, quando alguém lhe envia um cartão virtual com frases prontas da internet, e deixa por sua conta a interpretação do que ele teria querido dizer com palavras que não são as suas próprias. Além disso, quando não há a presença de um outro na sua frente que possa reagir ao seu óbvio, às vezes aprovando, mas também possivelmente contestando, você pode sentir a tentação de ensimesmar-se em seu óbvio, retirando-se da interação justamente na hora em que é vez do outro expor um óbvio talvez diferente do seu.

Diante disso, tenho preferido as antiguidades, que serão sempre modernas. Insisto na “face” (rosto) e não no “feice” (de facebook). Insisto no telefonema. Insisto no bilhete escrito no papel com caneta. Insisto na palavra dita, escrita, explicada, sem escassez. Demasiada. Intensa. Gaguejada. Feita e refeita. Sem ícones. Acredito no diálogo, que é feito de dois: um que se esvazia enquanto o outro fala do seu cheio, alternando a vez. Creio que teremos mais chances de nos entendermos se nos antropofagiarmos em busca do ponto comum, onde eu, que sou eu, e você que é você, pode vir a ser um nós. 

Comentários a esse texto: eliane.martins.oliveira@gmail.com

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