LOUVAÇÃO A FRANCISCO DE ASSIS (parte 1)
Por Francisco Alencar - historiador
























O que é, quem é, como é Deus? Nem todos os livros escritos no mundo conseguiram responder. Busca, invenção, procura, indagação, mistério? A face de Deus – de tantos nomes e crenças – nunca se revelou inteiramente na humana caminhada, seja a do primitivo homo erectus, que perambula pelo planeta há 40 milhões de anos, seja a nossa, do homo sapiens, de 40 mil anos.

Alguns preferem dizer que é nada, mera projeção do que gostaríamos de ser – invenção de gente que cria um Ente Superior à sua imagem e semelhança. Outros escrevem tratados para provar o que é improvável, no lusco-fusco da ciência.

Você, Francisco, não respondeu: viveu. Não quis falar do Altíssimo, do Transcendente, do Totalmente Outro, do Unitário Plural, a não ser através das coisas desse mundo.

E, como seguidor de Jesus Cristo, o Verbo encarnado, você tentou encontrar o Onipotente na simplicidade das criaturas sem qualquer poder que não este, supremo: o de existir. Poder vital que você não encontrou na riqueza de seu pai, o próspero comerciante, nem nos festejos intermináveis e acelerados de sua farta juventude, que quase sempre deixavam a ressaca da frustração.

Você, irmão Francisco, viu, viveu e encontrou o Deus da vida... na vida! Na irmã formiga, com sua extraordinária operosa e organizada rotina, e no irmão lobo, que você soube ser feroz apenas por causa do medo e do ódio que os moradores da pequena Gubbio lhe reservaram... O Bom Senhor está ali, nos bichinhos rastejantes, nos imponentes mamíferos, na pedra que cala, no pássaro que canta, na árvore que cresce, nos astros que giram no imenso céu. Na simplicidade de quem vê o mundo para além das aparências.

Altíssimo, Altíssimo, você diz e repete, Francisco. Sua alma, que é também seu corpo, ganha energia nova ao se lançar na direção do Inalcançável. E não desiste, apesar de saber que, por enquanto, na terrena trajetória, não chegará. Mas você, Francisco, entende que tão bom quanto estar no cume da montanha é escalá-la. E o cume não existe sem a subida...

Sim, irmão Francisco, temos vocação para o Alto, mas nascemos estruturalmente com os pés no chão! Ninguém pode, jamais, escapar de sua condição cósmica, terrenal, de criatura dependente de outras criaturas.

Somos seres de sangue e luz, vocacionados para nos elevar, para pensar e, sobretudo, viver com grandeza. O desafiante chamado à altitude de Deus, porém, não deve virar tentação de substituí-lo, ensinou você, Francisco. Daí a necessária companhia da irmã Humildade, que vem de húmus. Que fecunda o humano, limitando a ação tóxica do veneno da vaidade. Grandeza e simplicidade, eis o equipamento da peregrinação rumo ao Altíssimo.

No mundo das coisas, que no último século, o XX, produziu mais objetos do que em todos os anteriores, e arrancou da natureza cem vezes mais do que há 250 anos, louvar o Altíssimo é não ser escravo dos bens: é buscar o supremo Bem.

No mundo das medalhas e honrarias, do sucesso e da publicidade, anunciar que a glória e a honra só convêm ao Onipotente e Bom Senhor é ser de uma fraternidade radical, que não faz distinção de pessoa. É denunciar que a fama efêmera e a notoriedade passageira ( êmulos desse tempo de indelicadeza) geram, no fim das contas, mais angústia que felicidade.

Contra a moderna idolatria do “compro, logo existo”, do mundo onde tudo é dissecado, nomeado, reduzido, você, Francisco, apresenta o que “não tem governo, nem nunca terá”, do Qual ninguém é digno de dizer o Nome. 
 
Diante do Indizível, você, com humilde dignidade, foi cantor: amor, amor, amor.


Alencar, Francisco, In: “Cântico das criaturas– ecologia e juventude no mundo", Petrópolis: Vozes, 2000.  

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