O
ALBERGUE
Rubem Alves
Rubem Alves
Hoje escrevo
sem poesia e sem humor. Essa mudança deliberada de estilo se deve ao fato de
que desejo ser levado a sério pelos psicólogos que se dizem científicos. É fato
que não me levam a sério. Pode até ser que gostem da minha escritura, mas
literatura, para eles, não tem dignidade científica. Onde está o tratamento
estatístico do material? Onde estão os gráficos? Orientanda minha que se
candidatou à pós-graduação em psicologia em universidade de Campinas teve seu
projeto de tese rejeitado, sendo inclusive repreendida por haver citado opinião
minha, sob a alegação de que não sou psicólogo mas escritos. Imagino que Freud
teria tido o destino semelhante, caso se candidatasse ao mestrado na mesma
instituição. O mesmo professor o teria repreendido pelo uso das tragédias
gregas e das obras de Shakespeare, sob a alegação de não serem psicologia
cientifica mas simples diversão literária. Freud, de fato, juntamente com
pensadores como Groddeck, Durkheim, Nietzsche, Rousseau, Jung, Hobbes, pertence
a uma estirpe de pensadores diferentes dos científicos de hoje. Escreviam numa
total ignorância dos métodos estatísticos e se valiam exclusivamente de uma
função mental em perigo de extinção, chamada inteligência. E foi assim que
deram contribuições ao conhecimento humano que não encontro paralelo na pletora
de teses recheadas de gráficos, condição para serem reconhecidas como
científicas.
O que vou
dizer me parece óbvio, não carecendo de demonstração estatística. Mas, para
tranquilizar os psicólogos científicos, direi que o que digo são apenas
hipóteses. Nas hipóteses, como é sabido, não é obrigatório o aparecimento de
gráficos.
Mas antes de enunciar a minha hipótese desejo indicar sua relevância. Em sendo verdadeira ela muito contribuirá, em primeiro lugar, para a sabedoria daqueles que trabalham com terapia. Eles entenderão melhor os pacientes. E, em segundo lugar, ajudará as pessoas comuns a entender a si mesmas e aqueles com quem convivem, especialmente no sentido de informá-los sobre os sutis botões que, se tocados, provocarão metamorfoses indesejáveis nos mesmos.
Mas antes de enunciar a minha hipótese desejo indicar sua relevância. Em sendo verdadeira ela muito contribuirá, em primeiro lugar, para a sabedoria daqueles que trabalham com terapia. Eles entenderão melhor os pacientes. E, em segundo lugar, ajudará as pessoas comuns a entender a si mesmas e aqueles com quem convivem, especialmente no sentido de informá-los sobre os sutis botões que, se tocados, provocarão metamorfoses indesejáveis nos mesmos.
A formação
acadêmica faz com que as pessoas tenham dificuldades para entender enunciados
simples, especialmente se sua linguagem for concreta. Assim, para facilitar a
comunicação vou enunciar minha hipótese no estilo abstrato e de difícil
compreensão, a fim de que ele seja levado a sério cientificamente. Mas não se
aflijam: logo a seguir eu o escreverei em linguagem normal. A hipótese é a
seguinte:
O corpo (C) é uma unidade biológica móvel processadora
de informações elétricas (reações do tipo S - R) e simbóli-
cas (imagens, palavras); as informações simbólicas
encontram salvas na memória da dita unidade soa a forma
de programas (P), em tudo semelhantes aos programas de
computadores. A unidade C funciona de acordo com a
lógica de programa simbólico ativo no momento, sendo
que eles podem ser ativados por uma ampla variedade de
símbolos.
de informações elétricas (reações do tipo S - R) e simbóli-
cas (imagens, palavras); as informações simbólicas
encontram salvas na memória da dita unidade soa a forma
de programas (P), em tudo semelhantes aos programas de
computadores. A unidade C funciona de acordo com a
lógica de programa simbólico ativo no momento, sendo
que eles podem ser ativados por uma ampla variedade de
símbolos.
Passo, agora,
à explicação. Os sociólogos dos conhecimento Berger e Luckmann ( A
construção social da realidade) observam que enquanto os animais são
o seu corpo, os homens têm o seu corpo. Tudo o que os animais são está
inscrito na programação biológica do seu corpo. O seu corpo é o seu programa,
seu único programa. Sábias cantam sempre do mesmo jeito, as aranhas fazem teias
sempre do mesmo jeito, os caramujos fazem conchas sempre do mesmo jeito. O
corpo falou, está falado. Não têm conflitos. Corpo e alma estão sempre de
acordo. Por isso não ficam neuróticos. Estavam certos os teólogos que diziam
que os animais não possuem alma. Porque aquilo a que se dá o nome de alma é,
precisamente, a voz que discorda da voz do corpo: o corpo quer uma coisa, mas
"algo" que mora nele diz o contrário.
Já os homens
são diferentes dos animais. Eles não são o seu corpo. O corpo é só uma
"morada" que eles possuem. Assim sendo, existe para eles uma
possibilidade que não existe para os animais: eles podem se ausentar do
corpo. Pois não explicamos os atos incomuns de uma pessoa dizendo que ela
estava "fora de si"? Mas, se ela estava fora de si, quem é que estava
dentro dela, e que foi responsável pelos seus atos incomuns? Quem é que deve
ser responsabilizado? Sim, o corpo foi aquele, conhecido, onde normalmente
vivia o sr. ABC. Acontece que o sr. ABC estava fora. O corpo foi o mesmo. Mas
quem fez não foi o sr. ABC. Ele não pode, portanto, ser responsabilizado ou
punido por aquilo que um outro fez com o seu corpo. (Imagine agora que, em vez
de haver apenas um "outro" que eventualmente toma posse do nosso
corpo, haja vários, cada um de um jeito...)
A teoria
psicológica tradicional é muito mais simples e está muito mais de acordo com o
senso comum. Sua formulação clássica se encontra em Platão, havendo a teologia
cristã se apropriando dela posteriormente. Ela dia que o corpo é uma prisão. A
alma é a prisioneiro. Nascida num mundo luminoso e superior, ela caiu neste
nosso mundo sombrio, inferior. Encontra-se agora acorrentado no corpo, caverna
escura, sem poder ver as coisas tais como elas são. O que ela vê não é verdade.
São apenas as suas sombras. A alma deseja subir. Quer sair da sua prisão e
voltar ao mundo luminoso de onde veio. Mas o corpo, que é a sua prisão, é feito
de outra substância. É matéria. E também ele deseja voltar ao seu mundo. Quer
descer. A alma é leveza. O corpo é peso. existe um conflito. Mas ele não
acontece dentro da alma, que é pura flecha disparada para o infinito. A alma,
ela mesma, tem uma única vontade. ela almeja as coisas nobres, de cima: o
verdadeiro, o bom e o belo. O conflito acontece entre o corpo e a alma. a alma
é o herói. O corpo é o vilão. Os sacrifícios, as auto-flagelações, os jejuns,
as abstinências, a recusa do sexo, a recusa ao prazer, as mutilações -
todos esses atos de violência contra o corpo - são expressões cristãs da teoria
platônicas. segundo Norman O. Brown (Vida contra a morte), a civilização
e a cultura ocidentais se construíram sobre a repressão de corpo: é preciso que
o corpo seja reprimido para que a alma voe.
De qualquer
maneira, essa teoria nos garante que é sempre a mesma pessoa que está dentro de
corpo. O corpo tem um único morador, que sofre algumas oscilações: fica alegre,
fica triste, fica manso, fica bravo, fica amoroso, fica frio. Mas é sempre a
mesma pessoa.
Minha hipótese
é diferente - e me dá medo. Se eu a adoto é porque ela me ajuda a compreender a
mim mesmo. Valho-me de um modelo retirado da informática. Na ciência o uso de
modelos é muito útil. Modelos são imagens que facilitam a compreensão de algo
desconhecido. Assim, por meio de um modelo é possível visualizar e entender de
forma simples e direta o que é complicado. O meu modelo são os computadores. Os
computadores Os computadores, para funcionar, têm necessidade de duas coisas. A
primeira é chamada hardware - que é o conjunto de todas as partes
materiais que o compõem. É o corpo do computador. A segunda é o software
- que é uma entidade espiritual, feita de símbolos: os programas, que
normalmente se encontram em disquetes. São a alma do computador. Na teoria
platônica e do senso comum, cada hardware (corpo) tem apenas um software
(alma). Pois na minha teoria, cada hardware (corpo) tem uma infinidade
de softwares (almas, personalidades). Somos muitos. E é precisamente aí
que se encontra o problema: que o corpo seja morada de muitos: anjos e
demônios, bruxas e fadas, amantes e carrascos, vegetarianos e carnívoros,
bufões e agente funerários, filósofos e bêbados - todos moram no mesmo corpo. O
corpo é um albergue. Respondendo à pergunta que Jesus lhe fizera sobre o seu
nome, o demônio lhe disse, com agudo conhecimento psicológico: "Meu nome é
Legião, porque somos muitos."
In:
O amor que acende a Lua, Campinas, SP: Papirus, 1999.



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