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domingo, 29 de setembro de 2019


CASA DO SANTO – 28/09/19
Texto da profa. Eliane Oliveira













 
O velho pai de santo do terreiro de umbanda. Ele também era o dono da loja. Casa do Santo. Era o nome. Um ficava perto da outra. Só atravessar a calçada. Um grande pilão na porta, ao lado de estátua da Pomba Gira, do Exu e da Iemanjá em tamanho adulto. Cestas, velas, ervas. Atabaques e chocalhos. Tapetes de palha. Vasos de barro. Conchas do mar. Barquinhos de madeira. Cocares de índio. Chifre de boi. Cheiro forte de incenso. Um altarzinho no alto da parede dos fundos com Jesus de braços abertos e coração manifesto, iluminado por uma lampadazinha aos seus pés. Um balcão feito com estrutura de madeira. Vitrine que apresentava aos clientes delicadas miçangas, anéis, colares, brincos, tiaras. Acima do balcão, um baleiro de vidro, igual o da “balas de leite kids, a melhor bala que há” – quem tiver mais de 40 anos saberá do que estou falando. Prateleiras com dezenas de outros produtos, dentre os quais estavam os potes com quebra-queixo. Quebra-queixo é um doce feito de açúcar caramelado e pedaço de coco dentro. Não quebra o queixo coisa nenhuma, mas gruda no dente quando se mastiga. Deve ser daí o nome. Conheci quebra-queixo naquele dia. Tinha uns nove anos.

O moço da Casa do Santo me viu chegando ao seu balcão. “Moço, quero uma caixa de fósforo”. Ele me lembrava o Tio barnabé do Sítio do Pica Pau Amarelo. Senti a força dele e do lugar desde a entrada. Espiritualidade da floresta. Silêncio. Encantamento. Ancestralidade. Preto-Velho. Amoroso e preocupado, quis saber “Pra que eu precisava de fósforos?”. “São pra minha mãe”. Ela, que é católica e de família católica praticante de longa linhagem de católicos, não só não viu problema algum em que sua filha comprasse fósforos na loja em que se vende artigos de umbanda e candomblé, de quem o dono e vendedor era o pai de santo do terreiro da esquina, como deu preferência que eu lá fosse, ao invés da padaria, dos botequins e do mercado do bairro. Tudo bem que a Casa do Santo era um pouco mais perto da minha casa. Mas, se sua leitura católica seguisse dogmatismos e preconceitos, possivelmente uma postura de rejeição e desprezo imperaria, e sua orientação teria sido que eu me afastasse da Casa do Santo em qualquer hipótese, inclusive para comprar fósforos, mesmo que tivesse que ir mais longe. Dito de outra maneira, reconhecer a Casa do Santo como loja significava também reconhecê-la em sua dignidade religiosa, mesmo que, daquela religião, minha mãe não compartilhasse. É estranho que se tenha que enfatizar isso. Mas é preciso. Sobretudo em tempos em que, sob sombria inconsciência, há quem identifique tudo o que é diferente de si mesmo como inimigo. E, em nome de Deus, chega-se até ao extremo de querer seu extermínio.

É bom que se lembre e nunca se esqueça que religiões brasileiras de matriz africana, desde a escravidão, foram demonizadas e agredidas pelas instituições religiosas tradicionais dominantes e perseguidas pelo Estado. Para rezarem para seus orixás, sem serem violentados, tiveram que cultuá-los implicitamente em imagens de santos católicos. Ao longo da história, mantiveram-se no subterrâneo, acompanhando o exílio de seus sujeitos, lançados às margens da sociedade após uma abolição só no papel. Favelas. Periferia. Rejeito. Nova Senzala. Mas, apesar dessa exclusão estrutural, resistiram, em nome do sagrado e da memória de seus antepassados. Essa altivez era vista fortemente na Casa do Santo. Parte da vizinhança menosprezava-a, chamando-a genericamente de “casa de macumba”, ao que o velho pai de santo, orgulhosa e pacientemente, corrigia: “É ‘Casa do Santo’”.

Depois de me vender os fósforos, dirigiu-se até os potes de quebra-queixo. Encheu a mão com um punhado deles e me deu. O docinho pequenininho embrulhadinho com celofane. Recebi e agradeci com sorriso de criança quando vê doce. Selamos uma amizade. Ou melhor, recordamos uma amizade antiga e sempre havida do Preto Velho (mestre, sábio, vô) com o Erê (discípula, aprendiz, neta), baseada no respeito ao legado e à sabedoria das tradições, para muito além de qualquer pertencimento religioso. Quem sabe não foi a partir desse encontro que comecei a praticar antropologia? Axé, amigo! Amém, mãe! Namastê, todos os mestres! 🕉️🏹🙏

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